O plano econômico de Lula faz algum sentido?

O foco de sua plataforma para 2018 vai na linha de que o País não conseguirá reduzir o número de 12,9 milhões de desempregados se não ampliar o crédito para a produção e o consumo.”

Foram com essas palavras que os jornais definiram o projeto econômico do ex-presidente Lula, caso seja eleito em 2018.

Lula lançou seu plano há poucos dias. Aqui, pretendo analisar se tais ideias contam com algum respaldo econômico e aderência à realidade.

Se persistirem os sintomas, aumente a dose

O crédito é, em geral, visto como uma variável pró-cíclica; ou seja, tende a se comportar no mesmo sentido do ciclo econômico.

Isso significa que, em momentos de crescimento da atividade econômica, quando o risco diminui, o sistema financeiro e os agentes se mostram em geral mais propensos a emprestar e contratar empréstimos. 

Tal vigor econômico deixa os agentes mais confiantes e aumenta a demanda por dinheiro para investimentos, produção e consumo, fazendo com que o crédito cresça,

No entanto, quando a economia começa a ir mal, as empresas vêem suas margens de lucro caírem e as famílias têm redução na sua renda, a capacidade de pagamento diminui, o risco cresce e a propensão a conceder e contratar crédito cai já que o sistema financeiro, além de passar a temer por si só níveis mais altos de inadimplência, é obrigado por regulação a manter garantias mais altas para compensar os riscos maiores dos seus ativos, o que força a redução dos recursos disponíveis para empréstimo e a imposição de critérios mais rígidos na avaliação de potenciais tomadores. Desta forma, o crédito cai. 

Quando este cenário se torna especialmente severo, o chamamos de credit crunch. Com a menor disponibilidade de crédito, famílias e empresas tendem a ter menos recursos para consumir, investir e rolar dívidas anteriores, que muitas vezes ficam mais caras pelo aumento dos juros correntes.

 

A mudança no patamar de crédito da economia brasileira

 

Neste contexto, dada a falta de recursos disponíveis para elevar temporariamente a já comprometida restrição orçamentária de famílias e empresas até que a atividade econômica se recupere, o investimento trava, o consumo permanece baixo, as expectativas pioram e a crise tende a se prolongar até que o seu fator causador se dissipe e os agentes voltem a confiar o suficiente no futuro para emprestar, consumir, investir e produzir.

Sabendo dos efeitos negativos de contrações fortes de crédito, governos, em geral, tentam suprir a carência de recursos. Uma das formas mais comuns é o afrouxamento da política monetária, com juros praticamente nulos e injeção de liquidez na economia para estimular o setor financeiro e retomar a atividade econômica.

Quando os juros chegam no limite inferior (zero) e não há mais como usar a política monetária, as autoridades recorrem à compra de papéis podres dos bancos como forma de aliviar balanços, elevar a oferta de dinheiro na economia e diminuir riscos, no que se chamou por convenção de Quantitative Easing (QE). Ambas as estratégias foram utilizadas fortemente na Europa, nos Estados Unidos e no Japão e obtiveram resultados mistos.

O pós-crise de 2008

No Brasil, a saída foi um pouco diferente. Desde 2008 – ano marco do abandono progressivo do Tripé Macroeconômico – no lugar de salvamentos, compras de papéis ou taxas de juros nulas, o crédito público se tornou a grande“panaceia” econômica brasileira no suprimento das contrações no mercado de crédito privado.

De fato, sob o contexto de uma crise mundial sem precedentes, que destruiu a confiança dos agentes e reduziu brutalmente a oferta de crédito na economia brasileira, é plausível, embora não sem enormes controvérsias, defender a expansão do crédito público como uma forma de “segurar” a atividade econômica até que os ânimos se estabilizem e a oferta de crédito privado retorne ao normal.

A estratégia de expansão dos bancos públicos como provedores de crédito funcionou no curto-prazo. Passamos pela crise de 2008 de maneira razoavelmente segura, mantivemos crescimento considerável até 2010 e conseguimos segurar emprego e renda enquanto o resto do mundo desabava.

Apesar de todas as discordâncias que tenho com o BNDES, como citarei mais à frente, os dados mostram que os bancos públicos mantiveram taxas de crescimento significativas da concessão de crédito, enquanto os bancos privados reduziram brutalmente, em termos reais, suas carteiras no período de 2008 a 2009.

Dito isso, não foi indiferente a relevância positiva de tal política naquele contexto muito específico, quando se considera a falta de condições estruturais, como um mercado de capitais sólido ou um mercado bancário menos concentrado, que poderiam naturalmente amenizar o cenário negativo da época.

 

 

Custos

A imensa quantidade de crédito injetada na economia pelos bancos públicos traz um enorme custo implícito que, em uma aposta tão eleitoreira quanto macroeconomicamente irresponsável, teve sua importância minimizada.

O BNDES, por exemplo, se financia basicamente com recursos do FAT, com a venda de títulos públicos emitidos pelo Tesouro e, em um dos seus programas – o PSI -, por meio de despesa primária. Estes recursos são usados para conceder empréstimos subsidiados ao empresariado de forma que consigam, teoricamente, investir e manter a atividade econômica.

 

 

Como o Tesouro emite títulos de dívida pública prometendo pagar SELIC aos investidores para captar dinheiro que será usado no financiamento do BNDES, e o Banco faz empréstimos cobrando a TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), toda vez em que a SELIC é maior que a TJLP – como sempre é –ocorre um subsídio implícito.

Este subsídio se reflete no custo da dívida pública, que se torna automaticamente mais cara, já que o retorno para uma promessa de juros a 15% que o Tesouro fez a alguém que comprou um dos seus títulos, por exemplo, será “paga” por juros que não correspondem nem à metade disso quando o empresário pagar seu empréstimo junto ao BNDES.

Este custo será carregado por décadas e pago por gerações que nunca de fato optaram por endossar essa política. Mas, pedir para que um governo de quatro anos e seus eleitores façam grandes considerações intertemporais para períodos mais longos que o próximo mandato é, talvez, exigir demais.

 

 

Além do custo sobre a dívida pública, o BNDES tem ainda um outro custo, desta vez mais direto, quando usa o Programa de Sustentação do Investimento (PSI) para fornecer taxas de juros ainda mais baixas que as já oferecidas.

A diferença entre a taxa que oferece e a taxa já subsidiada do empréstimo é paga com despesa primária e afeta diretamente o resultado fiscal do governo.

Para se ter ideia do tamanho e da importância do PSI nos últimos anos, o programa foi um dos principais componentes das chamadas “pedaladas fiscais” e nos custou quase 0,5% do PIB em 2015 em despesa acumulada, com resultados duvidosos sobre a taxa de investimento. Veja mais detalhes aqui.

A percepção de que o crédito subsidiado dos bancos públicos seria a cura de todos os problemas brasileiros se fundamentava, portanto, em uma premissa absolutamente irreal: a de que manteríamos crescimento suficiente ao longo dos anos para que os custos de expandir a oferta de bilhões em crédito subsidiado fossem compatíveis com nossa situação fiscal e com nosso endividamento.

Como o BNDES, ao se alimentar de títulos de dívida emitidos pelo Tesouro, eleva o endividamento bruto do governo, podemos até optar por expandir tais empréstimos no curto-prazo, mas, caso se queira manter o equilíbrio da situação fiscal, mantendo a proporção dívida/PIB controlada, acaba sendo gerado um passivo a ser pago no futuro por superávits primários maiores (diferença entre receitas e despesas do governo desconsiderando juros), o que exige ou crescimento mais significativo de receitas, principalmente por crescimento do PIB e aumento de impostos, ou um controle mais rígido de despesas.

Caso a economia se expandisse com vigor, conseguiríamos tanto elevar receitas acima das despesas crescentes oriundas de tantos subsídios, gerando assim superávits primários, quanto diminuiríamos ou pelo menos manteríamos estável a proporção dívida/PIB.

Essa foi a aposta do governo de 2008 até 2014.

A ressaca

Embora até 2010, ano de crescimento recorde do PIB, após a recessão de 2009, a estratégia tenha sido muito bem sucedida, o superaquecimento da economia brasileira, que operava em pleno emprego, fez levantar as sobrancelhas dos agentes em desconfiança quanto à sustentabilidade da política econômica imensamente arriscada – e cara – do governo frente aos resultados então considerados decepcionantes do PIB a partir de 2011.

No entanto, a política creditícia, principalmente via BNDES, se aprofundou até pelo menos 2014. Se os efeitos sobre o investimento fora dos momentos de crise de crédito já eram questionáveis antes – afinal, nossa taxa de investimento permaneceu comparativamente baixa em relação a países com mesmas características que as nossas, mesmo depois de transformarmos o BNDES em um dos maiores bancos de desenvolvimento do mundo, com meio trilhão de reais dados para crédito empresarial desde 2008 -, após 2011 este efeito não se traduziu sequer em vigor econômico de curto ou médio prazo.

O pior da crise já havia se passado e a confiança, embora ainda abalada, não era baixa o suficiente para justificar o aprofundamento do BNDES ao ponto de ser responsável, sozinho, por quase 1/3 do crescimento recorde da dívida pública em 2014, com R$ 60 bilhões emitidos no ano só para financiar o banco.

 

 

 

Os sinais de exaustão do modelo econômico vigente eram claros já em 2011. Não havia mais o boom de commodities para equilibrar nossas contas, a economia não tinha capacidade ociosa o suficiente para aguentar mais um ciclo de elevação artificial do consumo, não existiam mais os fundamentos virtuosos que nos proporcionaram quase uma década de “milagre” – na qual as reformas estruturais foram deixadas de lado em favor de políticas de circunstância – mas mesmo assim optamos por aumentar a dose de um remédio caro que já não fazia efeito.

Como consequência, o PIB foi decepcionante ano após ano, chegando ao biênio negativo de 2015 e 2016. Com isso, as receitas, fundamentais para que se financiasse a política creditícia mantendo equilíbrio fiscal, nunca subiram o suficiente, as despesas continuaram crescendo em ritmo acelerado na esperança de que algum multiplicador fiscal nos salvasse, o crédito subsidiado se expandiu e a situação das contas públicas se deteriorou ainda mais rapidamente, fazendo com que a proporção dívida/PIB crescesse quase 20 pontos percentuais em poucos anos, chegando aos quase 70% em 2016.

Em condições normais, isso exigiria metas de superávit cada vez mais ambiciosas para que a dívida se estabilizasse e tivesse seu custo reduzido progressivamente; no entanto, na aposta de mais “política anti-cíclica” como motor de crescimento, via uma enxurrada de crédito subsidiado e desonerações, o governo fez o exato oposto.

Daí se seguiu a maior tolerância inflacionária, as retenções de tarifas, o aprofundamento de desonerações atabalhoadas, as marretadas monetárias e, mais que tudo, as revisões contínuas e para baixo, da meta de superávit, até o ponto inédito em que na prática se desobrigou a cumprir qualquer meta de economia em 2014 e anunciou, para 2016, pela primeira vez na história, um orçamento deficitário.

Com o aumento tão rápido da proporção dívida/PIB em meio à incapacidade do governo de gerar superávits primários ou pelo menos apresentar um plano econômico consistente, o risco da economia brasileira sobe, a capacidade de pagamento do governo passa a ser colocada em questão e finalmente, em 2015 e no início de 2016, perdemos o selo de bom pagador das três principais agências de risco do mundo.

Riscos elevados tornam mais difícil para um país conseguir oferecer seus títulos no mercado de forma que consiga captar recursos para se financiar e rolar dívida antiga. Na tentativa de tornar tais títulos mais atrativos e estabilizar os fluxos de capital, países tendem a prometer pagar taxas de juros mais altas nos seus títulos, aumentando o retorno do investidor como compensação ao risco maior do papel.

Em um contexto de inflação alta, crescimento nulo e profundas desconfianças tanto em relação à capacidade de pagamento quanto em relação à própria capacidade do Banco Central em cumprir metas de inflação, foi isso que o governo fez.

A taxa básica de juros se elevou para 14,25% em 2015 depois de uma marretada irresponsável para 7,25% que contribuiu para a perda de confiança no BACEN em 2012. A SELIC elevada, muito mais uma consequência do contexto econômico dramático que o Brasil vive do que uma causa, se por um lado aumenta o retorno do investidor e o atrai, por outro acelera o crescimento da dívida pública, em grande parte indexada pelos juros básicos, e aprofunda a desconfiança dos agentes quando vêem a deterioração ainda mais rápida da capacidade de pagamento do governo, que foi, em primeiro lugar, a responsável pela necessidade de aumentar a rentabilidade dos títulos de dívida como compensação de risco.

Instaura-se, portanto, um ciclo dramaticamente vicioso que exige a profunda adequação das contas públicas, a mudança de postura das autoridades e até mesmo a mudança das próprias autoridades em favor de tomadores de decisão que transmitam confiança e tenham capacidade técnica e política o suficiente para colocar planos de estabilização, como ajustes fiscais, em prática.

Se o ajuste fiscal de 2011, na saudosa época em que ainda tínhamos o benefício de anos de crescimento significativo do PIB e superávits primários, havia sido “para inglês ver”, com o aprofundamento da contabilidade criativa, incluindo pedaladas, e a maior dependência sobre receitas extraordinárias, em 2015 ele havia se tornado inevitável e teria que se dar de maneira muito mais rígida, em meio a uma depressão econômica com forte componente de crise fiscal e política.

A tentativa de mudança

A equipe econômica mudou. Joaquim Levy, conhecido como “mãos de tesoura”, por sua capacidade de cortar despesas, foi nomeado para arrumar a casa.

As políticas de desonerações tributárias, muito mais problemáticas e complicadas do que pareciam inicialmente, e subsídios ao crédito tiveram que ser revistas ou completamente extintas; a execução orçamentária foi freada até que o governo apresentasse um novo orçamento para 2016; critérios de acesso a benefícios como seguro-desemprego e pensões foram (corretamente) tornados mais rígidos; áreas como saúde e educação tiveram cortes bilionários e outras medidas, como a volta da CPMF, a reforma previdenciária e a trabalhista, entravam no vocabulário do governo.

No entanto, era muito pouco, muito tarde, e nada disso foi suficiente. O grau de destruição das contas públicas após anos de um modelo exaurido e caro de crescimento baseado em crédito, que não encontrava mais os fundamentos externos e internos para se tornar viável, era tão imenso em um contexto adicional de perda de apoio popular e parlamentar, que o governo não encontrou capacidade política nem técnica para reverter o quadro.

Pouco tempo depois, Levy se demite, terminando uma passagem pífia pela Fazenda; Nelson Barbosa, um dos pais teóricos do modelo econômico que havia sido implementado até então, assume a pasta.

O novo ministro insiste em um modelo de ajuste relativamente tímido frente à gravidade dos problemas econômicos do país e tem passagem ainda mais insignificante pelo cargo que seu antecessor.

O governo passa alguns meses praticamente em coma político, técnico e administrativo até acabar definitivamente com o afastamento de Dilma, após derrotas acachapantes na Câmara e no Senado.

O novo governo

Entra o governo Temer e, apesar do significativo apoio parlamentar e das melhoras palpáveis de confiança dos agentes, com expectativas mais positivas para o crescimento futuro, convergência da meta de inflação, queda do CDS (Credit Default Swap, uma espécie de “seguro” contra calotes), estabilização do câmbio e diminuição continuada da SELIC, os problemas fiscais em si, notadamente a incapacidade de gerar superávits primários e de controlar a dívida pública, permanecem e se aprofundam.

Mas por que fiz toda essa contextualização? Toda a história que contei serve para ilustrar como o que Lula e, em certa medida, Ciro Gomes, propõem em suas plataformas econômicas para 2018 não é nada mais nada menos do que o que já tentamos há quase uma década e que nos trouxe, após anos de teimosia, até aqui.

Este é o mesmo modelo que tentamos até que desse errado e que, determinados em um imenso furor eleitoreiro, continuamos tentando até que ele deu tão errado que se tornou impossível insistir.

Não existem hoje as condições internas e externas que tornaram esse modelo brevemente bem sucedido entre 2008-2011. Explico a seguir:

O cenário externo não é mais tão favorável

Isto significa que nosso vigor econômico, nossa capacidade de arrecadar e, em certa medida, o quanto conseguimos fazer “aventuras fiscais” depende bastante de por quanto o mundo compra commodities.

Por exportarmos bens com menor valor agregado, a proporção entre o preço destes bens e aqueles que importamos, de valor normalmente mais elevado, faz com que precisemos de commodities especialmente valorizadas para que tenhamos termos de troca (proporção entre preços dos bens exportados e preços dos bens importados) favoráveis e consigamos gerar resultados comerciais positivos.

A partir de 2004, com a ascensão Chinesa, observamos ganhos constantes nos termos de troca. Este movimento se aprofundou até 2008, decaindo levemente com o efeito da crise mundial, mas experimentando retomada de 2009 até o final de 2011 tanto como causa quanto como consequência da rápida recuperação da economia brasileira à época.

 

 

A partir de então, a situação se inverteu. Ao final de 2011, com a desaceleração Chinesa, os termos de troca se deterioraram fortemente e de maneira contínua, especialmente entre 2014 e 2016, praticamente anulando todo o crescimento dos 7 anos anteriores e pressionando ainda mais a economia brasileira.

Para que conseguíssemos comprar uma mesma quantidade de bens importados, precisávamos exportar cada vez mais, o que eventualmente se tornou insustentável e fez nossos fluxos comerciais se deteriorarem.

Desde a metade de 2016 observamos um ensaio de recuperação do preço de commodities, que levou a um salto recorde dos termos de troca em maio daquele ano e a uma notável melhoria nos saldos da balança comercial.

No entanto, apesar deste crescimento, é bastante improvável – senão impossível – apostar em mais um grande ciclo de supervalorização de commodities. A aposta não é só difícil de acreditar, mas também perigosa e exaurida, dando espaço para que sejam repetidos os mesmos erros que nos trouxeram até aqui e que impediram reformas fundamentais na estrutura da economia nacional.

Foi exatamente o “superciclo” de commodities – tido irresponsavelmente como estrutural e não conjuntural – que nos deixou mal-acostumados.

O período de bonança causado pelo boom de commodities e pela maturação de reformas dos governos anteriores, se ao mesmo tempo abriu uma janela única para que fizéssemos as reformas que deveriam ser feitas, retirou, também, a prioridade de mudanças estruturais que movessem nossa economia para um patamar mais elevado de produtividade e eficiência.

Optamos por não consertar o telhado na época de sol e agora tentamos, de certa forma desastradamente, fazer tais reformas no meio de uma tempestade perfeita.

 

 

Para ilustrar a inconstância de um modelo que coloque todas as fichas em commodities, veja a série histórica dos nossos termos de troca e perceba como são altamente voláteis e sensíveis a eventos externos (note o choque pós-crise do petróleo em 79).

Isso ocorre, em grande medida, graças à natureza do valor de commodities, que tende a flutuar mais pronunciadamente em decorrência de fatores geopolíticos e econômicos que no caso de bens de maior valor agregado.

Desta forma, como Venezuela, Rússia, Brasil e tantos outros países semelhantes comprovam, é até possível estruturar um modelo de crescimento baseado no comércio de commodities e em um afrouxamento fiscal derivado das receitas geradas de exportações; o problema é mantê-lo viável no longo prazo em meio às imensas instabilidades que dele decorrem e ter um plano B, de muito difícil implementação em geral, quando as receitas do comércio secam.

Apostar de novo em commodities para sustentar uma reedição do modelo de crescimento fiscalmente relaxado como o que adotamos a partir de 2008 é repetir o mesmo erro esperando resultados diferentes.

Não existe mais um “saldo fiscal positivo”

Ao longo dos anos 2000, com a determinação dos governos FHC e Lula I de organizar as contas públicas e sob a égide da LRF, conseguimos, a duras penas, gerar resultados primários positivos, que se acumularam a condições políticas e institucionais favoráveis e finalmente nos permitiram, em 2008, alcançar o tão sonhado grau de investimento.

 

 

Este equilíbrio sustentado das contas públicas nos possibilitou reduzir progressivamente a taxa de juros, melhorar o perfil da dívida (que se tornou mais longa e barata) e, assim, obter um saldo de confiança positivo junto aos agentes econômicos.

 

 

Como já exposto ao longo deste texto, este saldo se esvaiu rapidamente nos últimos anos com a progressiva destruição das contas públicas, culminando na perda do grau de investimento pelas três principais agências de verificação de risco do mundo.

Desta forma, tomando como referência o mecanismo de funcionamento altamente dependente em expansionismo fiscal dos estímulos creditícios feitos na nossa experiência desenvolvimentista, insistir em mais crédito subsidiado provavelmente seria uma má ideia que produziria, como produziu nos últimos anos, política fiscalmente “anti-cíclica” que na verdade aprofunda a deterioração econômica e mina ainda mais a confiança dos agentes.

A evidência empírica mostra que cenários de alto endividamento reduzem a efetividade de expansões fiscais, tornando, a depender das condições de endividamento, o efeito até mesmo negativo sobre a atividade econômica.

Isso ocorre, em geral, por agentes avaliarem quão insustentáveis e “curto-prazistas” são tais estímulos em meio a contas públicas já deterioradas que, para manter o mínimo de solvência do Estado, deverão ser sanadas ou com corte de gastos ou com aumento de impostos no futuro.

Revertem-se, assim, eventuais melhorias de curto-prazo na atividade econômica, tornando aquele crescimento um mero “voo de galinha” bastante caro.

Se a evidência está correta e se os números de endividamento não mentem, temos as condições perfeitas para NÃO insistir em benesses creditícias e fiscais.

Não existe espaço para mais endividamento

Como já tratado aqui, até pelo menos 2014, quando se deu o primeiro crescimento real negativo da carteira, a quantidade de crédito oferecida cresceu de maneira acentuada para tentar estimular a atividade econômica.

O acúmulo de crédito, aliado à perda de vigor econômico desde 2011, levou a níveis recorde e crescentes de endividamento das famílias e do setor privado em geral.

Como referência, segundo o BIS, em junho de 2005 a dívida do setor privado não-financeiro, como % do PIB, para o Brasil, era próxima de 32,7%. Onze anos depois, em junho de 2016, esta proporção chegou a 70,1% após leve queda em relação ao final de 2015.

Mesmo que tal proporção seja comparativamente baixa em relação a outros países, ela se torna preocupante quando se considera o alto custo desta dívida. Este custo se expressa, marcadamente, pelo elevadíssimo grau de comprometimento da renda do setor privado não-financeiro (famílias e empresas não-financeiras), que alcançou 22,0% em junho de 2016, um dos maiores valores da série histórica iniciada em 1999.

Isolando o endividamento das famílias, cuja demanda financiada por crédito farto foi parte significativa do vigor econômico nos períodos anteriores, vemos uma pequena tendência de inflexão após quase uma década de crescimento brutal.

 

 

A sustentação desta política, com o progressivo comprometimento da renda do setor privado, elevou constantemente os índices de inadimplência tanto para crédito livre quanto para crédito direcionado assim que os sinais de crescimento do PIB se esvaíram e levaram consigo a capacidade de pagamento de famílias e empresas.

 

 

Sendo assim, além dos desequilíbrios fiscais, que limitam a capacidade do Estado de forçar, por sua conta, a expansão do crédito, tem-se ainda o comprometimento da renda do setor privado pelo crédito dos períodos anteriores e pelo sistemático aumento dos níveis de inadimplência.

Tal endividamento reduz a própria propensão a consumir e investir pelo medo do endividamento por famílias e empresas e pela indisposição (e impossibilidade regulatória) do mercado financeiro de emprestar dinheiro a agentes com risco elevado de calote.

Em um cenário como este, de alto endividamento, queda na renda e expectativas turvas, dificilmente uma injeção extraordinária de crédito se converte em consumo ou investimento, sendo destinada, mais comumente que não, ao rolamento de dívidas anteriores.

É possível haver algum alívio circunstancial e a melhoria do perfil de endividamento destes agentes, mas certamente uma política de larga escala, subsidiada, de injeção de crédito para rolagem de dívida não parece uma alternativa razoável.

Mais sentido faria a adoção de programas de renegociação de dívida de famílias e empresas, prezando pelo alongamento dos pagamentos sob condições mais favoráveis, mas com o cuidado de não perdoar os montantes devidos para que não se incentive a farra dos constantes REFIS.

As circunstâncias citadas acima denotam por si só um cenário bastante desfavorável à política de crescimento proposta especialmente pelo ex-presidente Lula.

Ainda há de se considerar, no entanto, como fatores ainda mais desfavoráveis a esse tipo de modelo: a lenta recuperação da capacidade de pagamento de empresas e famílias, causada pela morosa recuperação do PIB e do mercado de trabalho; os enormes problemas em implementar agendas de ajuste fiscal de curto prazo; e, acima de tudo, as severas instabilidades políticas, que podem significar rupturas súbitas com quaisquer modelos econômicos implementados.

Assim, torna-se bastante difícil imaginar que faça sentido remediar a situação drástica que vivemos com uma receita creditícia que já se mostrou não só exaurida, como também contribuinte para o estado atual deplorável da economia brasileira.

Desta forma, o discurso fácil da panaceia creditícia repetida por Lula e, em certo grau, por Ciro Gomes, é apenas retórica simples, de fácil entendimento, mas sem sustentação alguma.

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