O mundo mudou. Você percebeu?

O mundo mudou, você se deu conta? É difícil notar, num mundo tão agitado e conflituoso, mas eu lhe garanto: você pode não ter percebido, mas nós vivemos o período mais próspero da história da humanidade. A verdade é que nunca fomos tão ricos, tão saudáveis, tão alfabetizados, tão desenvolvidos, e nunca vivemos tanto.

Como isso aconteceu? Será verdade mesmo? Este texto se propõe a mostrar e a explicar para você, caro leitor, a mudança pela qual o mundo passou ao longo dos últimos dois séculos.

Prosperidade

Há 200 anos, no longínquo ano de 1820, aproximadamente 94% (sim, noventa e quatro por cento) da população mundial vivia na situação de pobreza absoluta, definida como 1,90 dólares internacionais de 2011 por dia – ajustado pela paridade do poder de compra (PPP). Em 1950, ainda 72% da população mundial vivia sob essas condições.

 

 

Porém, com o advento da globalização, do aumento do comércio internacional, da liberalização crescente de mercados, dos ganhos de produtividade e, por consequência disso tudo, do crescimento econômico, o mundo enriqueceu como nunca antes, de tal sorte que, hoje, apenas 9,6% da população mundial vive em situação de pobreza absoluta. Isso se torna ainda mais impressionante quando consideramos que a população mundial multiplicou-se por 7 nesse período.

Estimativas do Banco Mundial mostram que, se o mundo crescer a uma média de 4,4% nos próximos anos, chegaremos a 2030 com apenas 3% da população mundial vivendo sob essa condição.

Note, no gráfico abaixo, como a renda mundial multiplicou-se por um incrível fator de 11 no período de 1820 a 2010. É provável que você, leitor, seja testemunha do fim da pobreza absoluta em escala global.

 

 

Desigualdade

O gráfico a seguir mostra a distribuição de renda do mundo, assim como a mediana da renda global. Note como, em 1820, éramos, além de muito pobres, muito desiguais: a imensa maioria do planeta tinha poucos recursos disponíveis. Já em 2000, 180 anos depois, isso mudou completamente: nos tornamos muito mais iguais, além de bem mais ricos.

Em 1820, metade da população mundial vivia com menos de 467$ anuais. Em 1950, o indivíduo mediano do mundo vivia com 3080$. Já em 2000, nossa renda mediana atingiu 4816$, isto é: 10 vezes mais do que 180 anos antes.

 

 

O crescimento acelerado de países da Ásia, em especial (mas não só), puxou essa grande queda da desigualdade. Com os benefícios das revoluções industriais e tecnológicas se irradiando pelo planeta, pudemos atingir, hoje, um mundo muito menos desigual e muito mais próspero. Branko Milanovic e Christoph Lakner mostram como a desigualdade no mundo vem caindo há décadas.

Países como a Coréia do Sul, o Chile, o Paraguai e outros emergentes, bem como países outrora pobres (como Botswana) estão em franco processo de catching up, isto é: estão se aproximando dos países ricos. A tendência, nas próximas décadas, é que esse movimento de queda da desigualdade global seja reforçado.

Saúde e longevidade

Não apenas a população mundial enriqueceu: ela também se tornou mais saudável e mais longeva. Doenças antes consideradas extremamente letais, como sarampo, caxumba, rubéola, varíola, entre outras, hoje já não representam grande ameaça assim.

Com o desenvolvimento e a sofisticação da ciência e da medicina, a humanidade foi capaz de desenvolver vacinas e praticamente erradicar um sem-número de doenças.

Tome como exemplo uma das vacinas mais famosas do mundo: a DTP3, vacina contra difteria, tétano e coqueluche. A taxa de vacinação (ou seja, a razão entre os vacinados e a população total) saiu de 21% em 1980 para incríveis 86% em 2015, atingindo, até mesmo, os rincões mais ermos do nosso planeta. Das mais de 7,3 bilhões de pessoas na Terra, cerca de 6,3 bilhões estão vacinadas contra as 3 doenças supracitadas.

 

 

Graças a isso, hoje a mortalidade infantil é uma fração do que já foi no passado. Em 1800, por exemplo, cerca de 43% das pessoas morriam antes de completarem 5 anos de idade. Mas, por efeito dos avanços da medicina e da ciência, já citados, como também de maiores gastos com saúde e investimentos em saneamento (tanto públicos, quanto privados), além de maior acesso a uma alimentação de melhor qualidade (graças aos imensos ganhos de produtividade na agricultura), hoje, apenas 4,25% das pessoas morrem antes dos 5 anos de idade. Como dito: um corte nessa taxa de mais de 90%.

 

 

A consequência mais óbvia foi que a humanidade passou a viver muito mais. A expectativa de vida ao nascer atinge recordes no mundo todo. Na Europa ocidental, por exemplo, estima-se, hoje, que uma criança, ao nascer, deva viver algo como 81 anos. Até mesmo na África – com todos os problemas pelos quais o continente passa – essa estatística vem melhorando ininterruptamente. Isso, claro, é muito bom, mas traz grandes desafios, como a reforma dos sistemas previdenciários pelo mundo.

 

 

Alfabetização

No tocante ao ensino e à educação, também nunca estivemos tão bem: em 1820, apenas 1 em cada 10 pessoas no mundo era alfabetizada. Hoje, incríveis 85 em cada 100 indivíduos são alfabetizados. Trata-se de um nível inédito – e que tem tudo para continuar avançando.

 

 

Por muito tempo, os benefícios econômicos de uma maior qualidade educacional foram menosprezados. Hoje, entretanto, já se sabe, graças à ampla literatura produzida ao longo das últimas décadas, dos efeitos da educação sobre a produtividade e o crescimento de longo prazo de uma nação. Não à toa, países do mundo inteiro tentam modernizar e aperfeiçoar seus sistemas educacionais, de forma a garantir que as futuras gerações estejam preparadas para os empregos de amanhã.

Projeta-se que, em 2100, por volta de 71% das pessoas terão, ao menos, o ensino médio completo. Por volta de 34% terão o ensino superior completo [1]. A economia do futuro será, cada vez mais, uma economia de conhecimento.

As inovações, os novos produtos, modelos de gestão, máquinas, gadgets e afins serão criados por aqueles que hoje estão na escola. Os ganhos de bem-estar e produtividade advindos desse processo serão imensos.

 

 

Informação

Se hoje temos mais educação do que nossos pais, avós e bisavós, também é verdade que dispomos de maior acesso à informação. Seus avós, caro leitor, sequer pensavam, quando jovens, em computadores; seus filhos, é provável, também não o façam. Se você está lendo este texto pelo celular ou tablet, parabéns: você faz parte dos mais de 51% de pessoas que acessam mais a internet por esses meios do que por computadores.

 

 

Nunca antes na história do mundo o acesso à informação e à comunicação foi tão democratizado. De fato, hoje, no mundo, há cerca de 0,98 telefone celular para cada pessoa. No Brasil, esse número chega a 1,27. Já em Hong-Kong, há 2,27 celulares para cada habitante! É a destruição-criativa de Schumpeter em ação: outrora grandes novidades, os computadores estão sendo deixados de lado (não totalmente, claro) em favor dos smartphones e tablets.

Aproximadamente 43% da população mundial acessa a internet, número que não para de crescer, como mostra o gráfico acima à esquerda. Antes da virada do milênio, a internet banda larga era restrita a países desenvolvidos e com tecnologia. Hoje, ela se espalhou pelo mundo – embora muitos países ainda careçam de infraestrutura adequada para tal.

Com a internet, em poucos segundos é possível saber o que se passa do outro lado do planeta, algo sequer imaginável há décadas. Essa facilidade de se obter informação facilita o comércio internacional, a pesquisa e os avanços científicos. Ampliar o acesso à rede é fundamental para sustentar maiores ganhos de produtividade.

Liberdade Política

Ainda na metade do século passado, muitos países viviam sob regimes ditatoriais – muitos dos quais, extremamente sanguinários. Isso mudou de décadas para cá, numa velocidade jamais antes vista.

O gráfico abaixo mostra as frações da população mundial que vivem e viveram sob diferentes regimes políticos ao longo do tempo. Há não mais do que 60 anos, regimes fechados, com pouca liberdade de expressão e muita regulação eram a regra. Hoje, porém, mais da metade do mundo (56%, sendo mais preciso) vive sob um regime democrático.

 

 

Claro, a despeito de todos os problemas que as democracias têm – e eles não são poucos -, só elas foram capazes de garantir a liberdade civil, o império da lei, a imprensa livre e o direito à opinião. O poder pertence cada vez mais aos indivíduos; é cada vez mais difícil de ser conseguido e exercido, e cada vez mais fácil de ser perdido. A este fenômeno, o escritor e colunista venezuelano, Moisés Naim, dá o nome de “O fim do poder”, em livro que leva o mesmo nome.

Conclusão

Aqueles que afirmam que o mundo está piorando estão divorciados da realidade. Tal assertiva não encontra respaldo algum na evidência; pelo contrário: como bem mostra a minudência dos dados, o mundo não para de melhorar, em todas as frentes que se possa imaginar.

É de se estranhar que tais realizações ganhem pouca notoriedade e estejam alheias ao público em geral. Também é fato que ainda temos muito o que melhorar: como dito no início do texto, cerca de 700 milhões de pessoas (9,6% da população mundial) ainda vivem na pobreza absoluta; muita gente ainda passa fome e não tem acesso digno a saúde, saneamento e afins. Todavia, não podemos deixar que as maiores conquistas da nossa espécie passem em brancas nuvens.

Por fim, é importante lembrar que relatórios casuísticos (isto é, que focam na foto, e não no filme), como o da Oxfam, publicado recentemente, devem sempre ser tomados com muito cuidado pois, em geral, subestimam a complexidade deste debate, merecendo pouco ou nenhum espaço no mesmo.

 

[1] Para entender melhor os termos do gráfico, veja: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ensino_secund%C3%A1rio

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