Kahneman e a pós-verdade

“A causa principal da pobreza (…) é um sistema econômico que fez com que o povo deixasse se guiar pelo Deus dinheiro. Um sistema econômico excludente que desloca os idosos e jovens”

“Quando o México envia seu povo, eles não enviam o melhor que têm. Eles não estão enviando vocês, eles estão enviando pessoas que têm diversos problemas e eles estão trazendo consigo estes problemas para nós”

“Não existe déficit da previdência”

“Vamos recuperar o controle de grandes somas de dinheiro, recuperar o controle imigratório, recuperar o controle de nossa democracia”

As quatro citações acima foram proferidas por lideranças mundiais muito influentes nas redes sociais. A primeira foi dita pelo Papa Francisco em discurso no Vaticano; a segunda, pelo presidente dos EUA, Donald Trump; a terceira, pela economista Denise Gentil e repetida por tantos outros; e, por fim, a última frase foi dita por Boris Johnson, um dos líderes da campanha do Brexit.

O que todas elas têm em incomum? Elas se tratam de pós-verdades.

O que é a “pós-verdade”?

Todos os anos, o departamento responsável pela elaboração de dicionários da universidade de Oxford (Oxford Dictionaries) elege uma palavra para acrescentar à sua imensa lista de palavras da língua inglesa.

No ano de 2016, a palavra escolhida foi “pós-verdade”. Ainda segundo a Oxford Dictionaries, “pós-verdade” é um adjetivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.

Como o leitor já deve ter notado, as afirmações citadas anteriormente são fortes, impositivas, apelam para as mais profundas emoções e vieses do leitor, e é justamente por isso que elas são tão perigosas.

A melhor forma de combatermos as pós-verdades é entendendo como elas influenciam nossa opinião. Desta forma, nada mais pertinente do que a psicologia; mais especificamente, as ideias do Nobel de Economia, Daniel Kahneman, e seu colaborador, Amos Tversky, para entender este tema.

Em seu livro mais popular [1] Kahneman apresenta uma variedade de conceitos e definições que poderiam muito bem ser utilizados para o nosso objetivo. Porém, escolhemos três deles para nos embasarmos: O Viés de Confirmação, a Heurística de Afeto e o Efeito Halo.

Viés de Confirmação: É a tendência desesperada por encontrar evidencias e afirmações, sejam elas baseadas em fatos ou não, para sustentar sua posição.

Heurística de Afeto: Pessoas deixam com que sua simpatia e antipatias determinem suas crenças acerca do mundo de maneira desproporcional.

Efeito Halo: Simplificadamente, é a tendência a gostar ou desgostar de tudo que diz respeito a uma pessoa baseada em uma coerência emocional exagerada e/ou a um modelo mental previamente disponível.

Ao ouvirmos um discurso de uma pessoa na televisão, ou lermos alguma citação nas redes sociais, nossa mente automaticamente busca por ordem e padrões de causalidade.

O primeiro filtro que esta informação passará em nosso sistema cognitivo será uma comparação com modelos mentais prévios a respeito da aparência da pessoa: Este indivíduo parece confiável? Ele se veste como alguém confiável? Ele fala como alguém confiável? É neste momento que entram em ação o Efeito Halo e a Heurística de Afeto.

Baseado em julgamentos emocionais e sinais superficiais, interpretamos de forma enviesada a aparência de uma pessoa e seu discurso, o que nos leva a confiar sem termos evidências de tal fato.

Isso ocorre muitas vezes em situações nas quais quem profere o discurso possui uma posição ou cargo importante que transmite simpatia e admiração.

O viés de confirmação entre em ação logo em seguida. Toda pessoa tem suas opiniões a respeito de como o mundo funciona e como deveria funcionar, sejam elas baseadas em evidencias ou não, e temos também a tendência de nos cercarmos com aquilo que não nos confronta.

Em estudo recente que aborda como as redes sociais afetam o comportamento dos indivíduos, os pesquisadores Eytan Bakshy, Solomon Messing e Lada Adamic encontraram evidencias de que a forma como os algoritmos do feed de notícias foi construído induz uma polarização excessiva no perfil de seus usuários. Nós temos uma tendência natural a nos cercarmos de opiniões que nos apoiam e sustentam nossas crenças.

É preciso entender que nós somos muito mais suscetíveis a vieses inconscientes do que gostaríamos que fossemos, e a partir disso lutar contra nossa tendência de nos basearmos menos em evidência empírica e fatos concretos e mais em fatores emocionais.

“Quando as pessoas acreditam que uma conclusão é verdadeira, ficam muito propensas a acreditar nos argumentos que parecem sustentá-la, mesmo que esses argumentos não sejam confiáveis” – Daniel Kahneman

[1] “Rápido e Devagar: duas formas de pensar

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2 comentários em “Kahneman e a pós-verdade

  • 08/02/2017 em 2:37 pm
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    O texto nos leva a pensar como somos tendenciosos ao comodismo. Muito interessante.

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