Estado Mínimo Entrevista #1: Flavio Abdenur

Flavio Abdenur é bacharel em economia pela PUC-Rio e doutor em matemática pura pelo IMPA, com pós-doutorado pela Université Paris XIII. Foi pesquisador assistente do IMPA e professor da PUC-Rio. Atualmente, é sócio-proprietário da consultoria SLQ Soluções Quantitativas, sócio e analista da gestora Vérios Investimentos e colunista do Instituto Mercado Popular.

Flavio tem uma trajetória profissional e intelectual um pouco fora do comum. Durante a graduação em economia, se encantou pelas áreas mais matematizadas da área, como teoria dos jogos e equilíbrio geral. Então, começou a cursar disciplinas de mestrado no IMPA, onde acabou concluindo o mestrado – em matemática pura, não aplicada – enquanto ainda cursava a graduação.

Em seguida emendou o doutorado, também em matemática pura, no próprio IMPA, onde teve “a sorte de entrar junto com uma turma absolutamente singular, um ponto fora da curva mesmo, na história mundial dos sistemas dinâmicos”, nas palavras dele. Entre seus colegas de turma estavam algumas futuras estrelas da pesquisa internacional na área, inclusive Artur Ávila, futuro ganhador da medalha Fields, com quem Flavio escreveu um de seus artigos de pesquisa.

“O Artur era muito mais novo do que a gente, então a gente tinha pena e ajudava ele com coisas como tabuada, por exemplo. Aqui entre nós: ele é muito esforçado mas meio burrinho, coitado”

Depois de alguns “trancos e solavancos”, também nas palavras dele, acabou criando uma consultoria voltada para economia e finanças quantitativas, a SLQ, e através dela se tornou analista e sócio da gestora de investimento automatizada, Vérios Investimentos.

Hoje em dia equilibra as duas, mas nutre, também, um interesse voraz por algumas outras áreas, em especial computação e educação. Sobre esta última, Flavio divide conosco o que sabe sobre o assunto, numa entrevista regada a uma mistura de realismo com bom humor.

Estado Mínimo: Como estudioso da educação, você pode nos dizer quais as melhores práticas nessa área? Quero dizer, o que dá certo e o que não dá?

Flavio Abdenur: Bem, primeiro, minhas credenciais: não sou propriamente um especialista em educação, mas tenho bastante experiência pessoal na área. Fiz carreira acadêmica durante muitos anos, primeiro num longo pós-doutorado no IMPA e depois como professor da PUC-Rio. E li e leio bastante sobre o assunto.

Já tive N conversas interessantes com especialistas sérios no assunto, inclusive com gente que mete muito a mão na massa. Um deles, o Guilherme Cintra, além de um baita estudioso de educação, é diretor de uma escola — aos 26 anos de idade! Mas essa turma inclui também uns “tiozões” com PhD, claro.

Enfim, agora que já dei minha carteirada, vamos lá. Para começar, o que funciona é o que indicam estudos rigorosos e baseados em dados, de preferência usando grupos experimental e de controle devidamente aleatorizados, etc. Paulo Freire e similares são achismo puro, o contrário disso.

Já li o suficiente para ter uma boa ideia do que diz essa turma. São como astrólogos: volta e meia acertam umas coisas, podem ter uma ou outra sacada boa mas, principalmente, tem muita bobagem, muito “bla-bla-bla”, muito pensamento mágico da linha “a-realidade-é-assim-porque-quero-que-seja-assim”.

Na verdade, a realidade é o que a evidência mostra que ela é; danem-se as nossas preferências políticas e gostos pessoais.

Estado Mínimo: E o que a evidência mostra?

Flavio Abdenur: Primeiro, incentivos importam. Isso vale tanto para os professores quanto para os alunos. Tem que poder demitir e promover professores baseado no mérito, é claro. E os alunos tem que perceber que estudar vai fazer diferença na vida deles. Eventuais prêmios e bolsas acadêmicas por desempenho ajudam.

Segundo, é fundamental haver avaliações contínuas dos alunos, com feedback o mais imediato possível. E avaliações de diferentes tipos, não só provas: dever de casa, apresentações orais, trabalhos por escrito, etc. A Carol Dweck e o Ender Ericsson escreveram dois livros recentes muito bacanas, que no fundo lidam com aprendizado. Se chamam “Mindset” e “Peak” respectivamente. Não sei se já foram traduzidos para o português.

Terceiro, passar aos alunos a sensação de que eles têm algum controle sobre a própria formação faz uma diferença tremenda para a motivação deles. Daí, em boa parte, a importância de haver disciplinas eletivas para alunos a partir de certa idade. Logo mais vou falar sobre isso.

A literatura (séria) da área tem outros resultados interessantes, alguns contra-intuitivos. Ao contrário do que muita gente acha, colocar a garotada em turmas pequenas não faz muita diferença para o aprendizado. Colocar um laptop no colo de cada criança também não, e ainda por cima é caro.

Também não faz muita diferença o professor ter muitos diplomas. Basta uma boa graduação, disposição pra ensinar e acima de tudo disposição para aprender a ensinar. O ensino é uma habilidade adquirida, como qualquer outra. Pelo que vi nos departamentos de educação de algumas universidades, quanto menos diplomas de educação os professores tiverem, melhor (hehe).

Estado Mínimo: Recentemente o governo Temer elaborou uma proposta de reforma do ensino médio, com flexibilização da grade horária e aumento da carga. Qual a sua opinião sobre essa proposta, tendo em vista sua resposta anterior?

Flavio Abdenur: Gosto muito dela. Tem gente séria argumentando que há problemas sérios de implementação, que botar a garotada em regime integral em dois ou três anos é inviável. Talvez seja mesmo, mas essa reforma parece ser um passo na direção certa.

Se não der para fazer a transição para o tempo integral em dois ou três anos, que se faça gradualmente em cinco, ou sete, o que for. Escola integral é uma ótima ideia, tanto para os alunos como para os pais deles.

Outra crítica é que não se pode tirar filosofia ou sociologia do ensino médio. Dessa crítica eu discordo. O tal “pensamento crítico” que essas disciplinas ensinam parece ser, em boa parte, bobajada ideológica. Tem o tal meme do “escola sem pensamento critico não é escola”. Mas que pensamento critico é esse que é tão uniforme? Todo mundo que usa esse chavão parece pertencer à mesmíssima corrente ideológica.

“Abaixo a burguesia”, “abaixo o capitalismo”, bla-bla-bla. Essa turma é tão retrógrada quanto os monarquistas, ou os saudosos da ditadura. Quanto menos ideologia nas escolas, melhor. Quero menos “pensamento crítico” e mais rigor lógico e boa redação nas escolas. E, se tem que ter filosofia e sociologia obrigatórias, por que não economia, arquitetura, psicologia, culinária, filatelia? Se tentar ensinar matérias demais — que claramente é o que o sistema atual tenta fazer, aliás — o resultado é uma porcaria, um ensino de péssima qualidade e superficial. Que é justamente o que se vê, aliás.

Estado Mínimo: Em tempos de PEC 55/241, fala-se muito de melhorar a qualidade do gasto público brasileiro. Em educação, hoje, é possível fazer mais com menos?

Flavio Abdenur: Sem dúvida que sim. Basta pesquisar um pouco sobre o assunto, e também conversar com alunos e professores de escolas públicas, para perceber que no sistema de ensino público há imensos desperdícios em termos tanto de recursos tanto financeiros quanto humanos.

Por exemplo, há estatísticas horrorosas sobre o quanto muitos professores “matam” aulas porque tem direito a X dias de licença médica por semestre, onde X é um número absurdamente alto. Um pouquinho de meritocracia faria um bem imenso aqui. No momento em que os professores perceberem que vão ter aumentos se ensinarem bem, e serem demitidos se ensinarem mal (ou se matarem aula, pelo amor de Deus), garanto que tanto a qualidade do ensino quanto a assiduidade dos professores (pelo amor de Deus, bis) vão melhorar muito.

Tendo dito tudo isso, é claro que se você amassar demais os gastos com o ensino público você vai acabar prejudicando os alunos. Aumento de eficiência é fundamental, mas não é panaceia. Francamente, não sei se, ou até que ponto, a PEC vai comprimir os gastos com educação. Não estudei isso com cuidado.

Certamente a PEC não vai provocar essa hecatombe educacional que os suspeitos de sempre estão apontando, mas não tenho a mínima ideia de se vai dar pra atingir a despesa ótima (no sentido econômico) da educação como proporção do PIB. Até porque ninguém sabe qual é essa despesa ótima. O que dá pra fazer é olhar a literatura, comparar com as despesas de países parecidos com o Brasil em termos de renda etc. Pelo que leio, o Brasil não gasta pouco com educação. Mas certamente gasta mal, e ainda por cima o gasto é mal distribuído, para variar.

Estado Mínimo: Fosse você um gestor público responsável por essa área, quais as 5 medidas prioritárias que tomaria?

Flavio Abdenur: Vamos lá. Tendo rebatizado o Brasil de Abdenuristão, do qual sou déspota absoluto (e benevolente ma non troppo), seguem cinco decretos imperiais sobre a educação:

I – O ensino começaria o mais cedo o possível. Quatro, cinco anos de idade, seja lá qual for a idade que os melhores estudos recomendam. Além de beneficiar a formação dos alunos, teria a vantagem de ajudar as mães de crianças pequenas a voltarem ao mercado de trabalho, ou a se aprofundarem nas suas carreiras.

II – No ensino médio, o currículo das escolas seria flexibilizado na medida do possível. O aluno estudaria sempre um núcleo duro de disciplinas fundamentais, e em paralelo disciplinas de duas categorias. A primeira dessas categorias seria um conjunto de disciplinas que são obrigatórias mas que só precisariam ser cursadas durante, digamos, um ano. A segunda categoria seriam disciplinas escolhidas livremente a partir de um menu de disciplinas optativas.

O núcleo duro consistiria em português, inglês (que para o desgosto dos nacionalistas virou a língua franca do planeta, lamento) e matemática. As obrigatórias que seriam cursadas durante no mínimo um ano seriam história mundial, historia do Brasil, geografia, química, física e biologia.

Já filosofia, sociologia, psicologia, culinária, música, economia… tudo isso é lindo e importante, como já disse, mas não absolutamente fundamental. Essas seriam oferecidas como eletivas pelas escolas que tiverem condições de oferecê-las. Óbvio que não haveria condições de todas as escolas oferecerem absolutamente todas as possíveis eletivas.

Nesse sistema, a cada semestre o aluno faria, digamos, seis matérias. As três do núcleo duro — matemática, português e inglês — e mais três obrigatórias ou eletivas. No final de três anos seriam 18 disciplinas obrigatórias ou eletivas, haveria muito espaço para o aluno explorar ou se aprofundar em diferentes matérias.

Enfim, se tudo isso soa muito familiar, é porque estou mais ou menos plagiando o sistema dos EUA, que aliás claramente serviu como inspiração para a medida provisória que o governo Temer propôs.

O ensino técnico seria plenamente compatível com a estrutura acima. Ele entraria no lugar das disciplinas eletivas. Nem todo mundo pode, deve ou quer ir para a universidade.

III – Cobrança de mensalidade nas universidades públicas. O Ricardo Paes de Barros tem toda a razão, deixar aluno rico estudar direito de graça na USP é uma loucura, uma das políticas públicas mais injustas que poderia haver. A população toda subsidiando um cara de família rica para ele depois ficar mais rico ainda. Então os alunos de famílias acima de uma certa renda pagariam a mensalidade integral, os um pouco abaixo pagariam um pouco menos, e assim por diante. De graça mesmo, só para o pessoal sem grana mesmo.

Resumindo: filho de banqueiro pagaria mensalidade integral, filho de arquiteto pagaria boa parte da mensalidade (dependendo da renda do arquiteto, claro), filho de padeiro ou pedreiro não pagaria nada. Dá para bolar uma fórmula justa pra fazer essa conta.

Essa medida sistema geraria vários incentivos bons. Os pais cobrariam mais empenho dos filhos, os próprios alunos valorizariam mais a educação. Não haveria mais — ou pelo menos praticamente sumiria — aquela figura ridícula, o estudante profissional que passa dez alunos pulando de curso em curso, “militando” em DCE e geralmente atrapalhando os outros.

Enfim, por si só essa reforma geraria uma série de boas mudanças de comportamento. E, de quebra, as universidades se financiariam, pelo menos em parte, o que liberaria mais recursos do governo para os ensinos fundamental e médio.

IV – Ainda sobre as universidades: desburocratização radical. “Autonomia das universidades” mesmo, não essa maluquice de “deixa-a-universidade-fazer-o-que-quiser-e-o-dinheiro-do-governo-cair-como-maná-do-céu” que, na prática, os sindicatos de professores querem.

Libera as estruturas curriculares, deixa as universidades inovarem e competirem entre si. Facilitaria cooperação e intercâmbio com universidades estrangeiras. Aliás seria ótimo se o governo brasileiro deixasse — aliás, implorasse — aos MITs e Princetons da vida instalarem campus avançados aqui, como já acontece em outros países.

V – Botaria um pessoal bom de análise e gestão para estudar o que foi feito no ensino fundamental e médio de Sobral, Ceará, ao longo do último par de décadas.

Eles conseguiram resultados fantásticos em educação sem gastar uma fortuna com isso. Fizeram uma série de micro-reformas que tornaram o ensino muito mais eficaz. Criaram um sistema de incentivos (tanto “negativos” quanto “positivos”) para os professores, estabeleceram currículos calcados no bom-senso, despolitizaram e profissionalizaram a gestão das escolas, etc.

Enfim, a ideia seria Sobralizar, na medida do possível, o ensino público no Bras… digo, no Abdenuristão inteiro.

No mundo real, essa tentativa de usar Sobral como modelo já está sendo feita, mas de maneira um pouco meia-boca. Os sindicatos de professores são contra a instituição de incentivos, por exemplo. Têm horror à meritocracia. Já eu, aprofundaria e radicalizaria o processo.

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